Fonte dos afectos
Não permitas nunca que o tempo ou a rotina te façam descuidar os teus afectos. Recorda que quem deixar de beber da tua fonte não deixará de ter sede.
Pureza perdida
O abrir da porta deixa-me livre.
Um pé passa, depois o outro
e desço as escadas.
A cada passo abre um pouco mais
o tecido que cobre o meu corpo.
A pele morena que sobressai,
das vestes brancas
puras como a neve,
reluz nos teus olhos
que espelham o desejo
de manchar o tecido de vermelho.
(des)construção
Não olho o mundo que se vai desmoronando à minha volta. Faço tijolos de sonhos para o construir.
Estados desabridos
Como pode um estado d’alma estar por vezes tão vazio de tantas coisas e logo tão cheio de uma só?
Ponta de corda
Uma corda muito fina
Que puxei com cuidado
Na outra ponta uma menina
Que nela se tinha enrolado.
Puxei daqui, rodou dali
Deixou-se desenrolar
Até que sem corda eu vi
Era a menina a girar.
Segurei-a pela mão
Deixei-me por ela levar
A corda caída no chão
Usei-a para nos amarrar.
Eu, não sei
Eu não sei ser poeta. Não sei burilar em palavras para mim vazias de sentido o sentimento que alguém, lendo, reconhecerá como seu. Eu não sei ser poeta quando nas palavras todas que conheço não encontro as que me expliquem sentimentos que sinto. Como posso eu exprimir em palavras arrebatamentos que não entendo? Como fazem os poetas? Eu não sei ser poeta.
Comanda a vida
Perigoso não é sonhar demasiado alto, é até saudável. Perigoso é esquecer que é sonho.
Espelho d’alma
Os olhos não são o espelho da alma, são o convite. Os lábios são. Espelho na palavra, porta no beijo.
Rosto
O seu rosto, duas tranças de prata e a noite escura não tinha reflexo.
Duas verdades
O meu reflexo é muito mais parecido comigo do que eu.
