29Nov11

onde estavas amanhã para sempre?


Saudade

30Out11

You whisper it with your heart and mine replies the same sad song about the Portuguese word you can’t pronounce, the ancient meaning you can’t translate. And yet, my sailor, you whisper it to me.
Tears of joy and sighs of pain cross the oceans to meet its pair.
The parted souls, fragile yet strong wait for their bodies to meet in a slow passionate kiss.
And the Portuguese word will cease to exist, the ancient now new and became what I feel for you. It’s more than a simple “I miss you” is Saudade.


Parte I

Estávamos no dia 1 de Abril de 2011, num belo país à beira – mar, ou seja, em Portugal. O sol pairava sobre os céus, ao mesmo tempo que as nuvens lutavam pelo seu protagonismo. A brisa do mar amolecia as cabeças desenraizadas destes europeus portugueses, ou melhor, destes portugueses europeus; os corações induziam sofrimentos através de tanta tensão latente no calor que subia e parecia provocar a queda de chuviscos. A melancolia calorenta invadia tudo e todos numa espécie de turbilhão que não era a força da natureza, era, sim, o excesso de pressão exercida pelas más vontades das pessoas que passeavam quase por favor. O rosto de tais pessoas, diga – se cinzento, mergulhava as pessoas que apresentavam outra cor no rosto, diga – se amarelo, numa transformação apática e redundante. Aquele fenómeno era contagiante e doentio. A acompanhar este sortilégio, o fumo dos carros entrava em força pelas narinas e por todos os outros ditos orifícios num estado de violência e repreensão poluidora obrigatória. Rummmmm! Pummmmm! Titititititi! Tais sons exaltavam a dita humanidade urbana e robótica. Sim, o som dos passarinhos e da água deu lugar ao som dos carros, das lambretas, dos camiões, das buzinas e mais que nem vale a pena referir.
Num cenário tão insustentável, tão insustentável pesado do ser, havia uma cara sorridente, confiante, inocente, alegre e aventureira. Bom, em quase dez milhões de habitantes, conseguimos encontrar um indivíduo que se diferenciava de todos os outros, como tal, é óbvio, que o nosso pequeno conto se centralizará neste iluminado fulano. O seu nome era Dom José de Portugal. Era um homem elegantíssimo, muito preocupado com a sua aparência física e com os aspectos materiais da vida. Era um doidivanas do reduto materialista, um amante de boa comida e boa bebida. O seu cabelo, apesar de ainda ser jovem, era grisalho e um pouco gasto; dizia – se, inclusive, que tinha potencial para ser um bom actor em Hollywood – claro que quando eram proferidos tais elogios, Dom José ficava radiante. Os seus olhos eram escuros, mas, ao mesmo tempo, pareciam ser claros, e o seu olhar era profundo, misterioso e dúbio. O seu nariz era um pouco pontiagudo. Quando era pequeno, a mãe de Dom José dizia que o nariz lhe crescia porque ele mentia muito. Se tal fosse verdade, diríamos que Dom José tinha uma queda para as mentiras. Mas isso até Cristo teve, dado que, havia fingido ter ido para o céu e três dias depois lá estava ele fora da cova.
- Sou lindo, sou brilhante, sou um grande político! – gritava Dom José ao espelho, ao mesmo tempo que se ria para o seu reflexo.
Dom José lia muitos livros de ficção e outros mais de política. Para que se veja esta paixão pela leitura, Dom José lera “ Animal Farm”, de George Orwell, com apenas dez anos, e, após ter lido com tanta satisfação e admiração, dizia para si mesmo que queria ser como aqueles porcos amorosos da história. São devaneios de criança! Mas tais marcas ficam sempre nas incongruências do destino. Todavia, o livro que o marcara mais fora “ Dom Quixote de la Mancha”, de Miguel Cervantes. Tal como a personagem principal do livro, Dom José sonhava em partir para um mundo de aventuras e desacatos, um mundo que choraria pela sua dama e sofreria as suas conquistas por ele, ou melhor, por ela.
- Sou um aventureiro cavaleiro político que trará para o seu país a glória dos tempos antigos, dos tempos em que se fazia retretes a ouro de tanta abundância ser – dizia Dom José para si próprio. – E seja o mal maior para aquele que diga o contrário! – exaltou Dom José enquanto coçava o nariz.
Dom José adorava o cor – de – rosa, como tal, o leitor não estranhará a sua escolha pelo fato cor – de – rosa com uma rosa enfiada no bolso do casaco. Um fato efeminado, contudo, bastante elegante e digno de um homem que parecia prometer um mundo cor – de – rosa aos outros e a si próprio.
- Hoje é o dia, o dito dia que partirei em busca de novas aventuras, de novas conquistas e de novos horizontes! – sonhava Dom José.
Bem vestido, com a barba feita e o corpo bem lavado( pois higiene é coisa que não pode faltar a um bom político), o nosso herói lá se pôs a caminho com o intuito de fazer a diferença e trazer a harmonia que tanto o país precisava. Portugal, em 2011, vivia uma crise económica complicadíssima. Vivia – se em tempos que os pobres viviam de subsídios, tendo em conta que a precariedade laboral era esmagadora, e os ricos viviam de avultados salários. Bom, a verdade é que o cenário não mudara muito ao longo dos séculos.
Dom José, apesar de ser bom nome de famílias muy antigas, alugara uma casita perto do palácio de São Bento. Dizia ele que “políticos são aqueles que estão perto e agarrados ao poder”. Razões teria e mais outras haveria de as ter. A sua primeira aventura centrou – se num belo café, café com requinte impróprio para gente sem dinheiros e sem estima pelos bolsos cheios.
- Um congresso para conquistas! Tal como antigamente, onde pessoas notáveis como Eça de Queirós e Antero de Quental apareciam para discutir os demais problemas do nosso eterno país – excitava – se Dom José de Portugal.
Quando se dirigia para o tal café finório, Dom José ficou incrédulo com o que via: três jovens (uma oriental, uma africana, outra europeia) com vestes pouco próprias que dançavam ao ritmo de “Danza Kuduro”;
- Meninas! Que comportamentos são estes! O nosso país precisa de uma geração desenrascada! Abaixo a geração à rasca! Fu – fu! – gritava Dom José num tom um pouco agressivo.
Com tais declarações, o nosso revigorante herói colocou – se a jeito. Não notara ele que a cerca de quatro metros de distância das belas raparigas estavam cinco rapagões. E como o diabo esfrega o olho, viu – se refugiado dentro do café chique a valer, após ter levado com tomates e outras variadas peças de fruta. Cumprimentou as pessoas com um gesto um pouco ridículo (a mania de ser superior faz o ser humano ganhar os tiques mais invulgares que se possa imaginar). “Estivesse aqui a minha bela Penélope de Belém! Enfrentaria todas estas pessoas só de um golpe”, pensava Dom José consigo próprio.
Aquele congresso não se identificava com o plano racionalizado de Dom José. De ricos não se contava um pelo aspecto. Eram pessoas do povo que tomavam o seu cafezinho e conversavam com amigos ou amigas acerca dos problemas do quotidiano. Contudo, Dom José afirmava – se, de forma veemente e vangloriosa, um defensor dos pobres. Portugal era um país de pobres e era necessário defendê – los e levá – los todos à riqueza.
- Pobres do meu coração! – dirigiu – se Dom José para os que estavam no café.
Todos olharam fixamente para Dom José e ficaram impávidos com tal figura. Depois da surpresa vem o riso. Um indivíduo desta figura, vestido com uma fatiota cor – de – rosa, suscitava o riso em qualquer parte do mundo (sem qualquer discriminação).
- Sou o vosso libertador! Portugal é nosso! Vamos acabar com esta enorme crise económica. Quem tem culpa disto são os de lá fora que colocaram o mundo em crise; nós? Somos vítimas, somos pequenos peões! Tudo podemos fazer, mas, ao mesmo tempo, nada podemos fazer. – ao ver que os rostos dos ouvintes murchavam, acrescentou – Viva ao nosso Portugal!
O povo ria, bebia o café e sorria. Começavam a levar aquele estranho com alguma graciosidade. Todavia, encaravam – no como Dom José encarava a crise, ou seja, levavam – no a sério, mas, ao mesmo tempo, não o levavam nada a sério. O povo quer é festa e divertimento. Isto já vem dos romanos, não é novidade nos nossos áureos tempos, por isso batiam palmas de grande contentamento e satisfação.
- Lutaremos por um país de pobres para um país mais pobre! – disparou Dom José.
Ora, tal frase não foi muito bem recebida pelo público. Dom José, ao ver que tinha cometido um erro crasso, corou como um menino de seis anos quando recebe um elogio de uma menina da turma. A revolta pairou sobre todos. Cadeiras voavam em direcção a Dom José, tal como as chávenas com café e os copos com coca – cola. Dom José caiu, após ter sido atingido com uma cadeira no peito. Sentiu – se zonzo e completamente amedrontado. Suava de tanto medo. Como se não chegasse, alguns foram dar uns pontapés valentes na barriga do estendido político andante. A voz do povo é tão instável! Num primeiro momento, admiravam aquele bom falante, passados alguns minutos, pontapeavam – no com desdém e nojo. Todavia, como pessoas há muitas e feitios também o há para todos os gostos, ficara um estranho a olhar para Dom José com grande admiração. Esse homem, dos seus quarentas e poucos anos, deslumbrava com o seu charme e a sua boa forma física. Tinha um cabelo preto muito intenso e uns olhos castanhos brilhantes. Vestia um fato cor – de – laranja.
- Finalmente um político andante! Um homem de coração e de força. Quão corajoso e inovador! – elogiava o estranho de fato cor – de – laranja, ao mesmo tempo que auxiliava o pobre Dom José a levantar – se.
- Admira – me? Não o faça, adulações são pecados que um político andante não pode saborear. Vejo em sim alma e alguma infinidade com as minhas ideias. Tomemos um café e discutamos um pouco o futuro do nosso belo país – convidou Dom José.
Sentaram ambos e conversaram durante horas. Eram como almas gémeas, almas gémeas de um futuro promissor. Depois do café, venha o vinho. E como o vinho é néctar dos deuses, não há humano que não sucumbe perante o divino poder sincero e falador que tem o vinho. Mas isto são pormenores de uma bela amizade que se fazia crescer. Dom José ficou a saber que o nome do estranho era Jacinto Lebres dos Passos. “Bonito nome”, repetira – o Dom José duas vezes.
- Não quer o meu caro Jacinto Lebres dos Passos partir comigo para mais aventuras? Seremos como unha e carne! Será o meu ministro. Claro está que, pelo facto de me servir, mais tarde, será recompensado com alguma autarquia ou empresa valiosa que tenha mister em mente – prometeu Dom José. Parecia nervoso, pois batia a perna a uma velocidade maluca.
Jacinto Lebres dos Passos ficou paralisado. E demorou até responder:
- E-e-e-u? – questionava Jacinto completamente incrédulo.
Escusado dizer que tal conversa de gagos durou cerca de meia – hora. Jacinto Lebres dos Passos era o ministro de Dom José de Portugal. Eterno peito lusitano ressuscitava pela força e perseverança de dois bons portugueses.
O sol raiava neste belo país. A máquina capitalista, representada no fumo e no barulho, dava sinais de fazer um pequeno intervalo. O vento soprava com tal força que não seria mais que o seu grito de revolta perante o ser humano. O cheiro a relva dissipar – se – ia aos poucos, dando sentido à exaustão que o nosso mundo estava a ter em todos os sentidos. Exaustão que cobria os céus de desgaste e de raiva. As folhas esquecidas do Outono, escondidas debaixo dos bancos e pelos mais ínfimos lugares, voavam e tapavam o sol às formigas que trabalhavam na sua sociedade. O velhinho que estava num dos bancos chorava, chorava de fome, visto que a sua pensão havia sido “cortada”. Os gatos miavam e acompanhavam o choro do triste e pobre idoso, miavam como se fosse o último miar do mundo. Que miar tão pouco ortodoxo! O sofrível despertar dos gatos desenvolvera um acto mecânico da natureza humana: sobrevivência. O sol, já cansado de tanta tristeza, desaparecera. Representar e mostrar algo surreal e inexistente era algo que nem o sol conseguia.
Em tal cenário, propício ou não para aventuras, o nosso herói e o seu ministro lá se puseram a caminho de tais aventuras. O velhinho continuava a chorar, o seu rosto estava cravado de lágrimas com uma paixão de Cristo. Encontrava – se num banquinho verde já muito velho, com lascas afiadas e escritos namoradeiros feito com faca ou chaves.
- Jacinto, meu bom ministro, vê aquele idoso tão contente de alegria. Até chora! Vamos pedir – lhe que contribua para a nossa aventura. Vamos, Jacinto, vamos, rápido – soergueu – se Dom José.
O velhinho usava roupas com alguns rasgos. A camisa que usava tinha três furos enormes. As calças eram pretas, todavia, também estavam rotas. Usava um chapéu com mosaico cinzento e castanho. O seu olhar despertou alguma esperança quando viu dois formosos homens a aproximar – se dele.
- Meu ilustre senhor, apresento – me desde já, sou Dom José de Portugal. Este é o meu ministro Jacinto Lebres dos Passos – acrescentou -, tão ilustre e tão magnífico dos que pode haver para ajudar Portugal a renascer!
- Muito agrado, meus senhores. O meu nome é João Kundera.
João Kundera, o velhinho pobre e solitário, olha para os dois homens com fatiotas excêntricas com alguma incredulidade. Ao seu lado tinha uma pilha de livros de Ernest Hemingway. Conseguia – se ler o título do livro que estava no topo deste aglomerado de livros: “Ilhas na Corrente”. Este idoso, tal como a personagem Thomas Hudson desta obra de Hemingway, aparentava ter tido uma vida com vários infortúnios e azares sobre – humanos do destino.
- Precisamos de algum dinheiro. Vossa excelência não terá algo para a nossa viagem ? – questionou Dom José.
- Nada tenho, meu senhor. Tenho passado fome, frio e medos neste banco. Banco este que tem sido a minha casa – retorquiu João Kundera.
- Hmm…estou a ver que tem aí uns belos livros…- divagou solenemente Dom José de Portugal.
- É tudo o que tenho. Sem eles, não teria a minha identidade e a minha força para enfrentar o mundo e os seus fantasmas. Ernest Hemingway, Eça de Queirós e Franz Kafka são escritores que marcam a minha existência – disse João Kundera.
- Meu caro, meu bom português, não quer ajudar o nosso Portugal?
- Com certeza que quero – retorquiu João Kundera.
- Tendo em conta que não tem dinheiro, vamos precisar de levar esses livros – pediu Dom José.
- A minha cultura não! Levem – me tudo e façam com o meu corpo o que quiserem! Mas a minha cultura não, por favor! – chorava João Kundera.
- Mas é preciso para enfrentarmos estes obstáculos que se impõem no agitado quotidiano… – insistiu Jacinto Lebres dos Passos que até então estava silencioso.
- Levem, levem, levem! Ide rápido! Deixai – me, por favor – gritava João Kundera.
Dom José e o seu ilustre ministro alaranjado seguiram caminho com os livros de João Kundera. João Kundera, encolhido como um rato, deixava cair lágrimas que entravam na terra em forma de ácido lacrimejante. Dom José, pelo contrário, esboçava um sorriso de orelha a orelha. “ Fiz o melhor para Portugal”, dizia para si mesmo. Se acreditava no que dizia, nem nós sabemos, pois não se pode saber quem domina o cérebro. Será o consciente ou inconsciente?


Aquela cigana

06Set11

Os carros estremeciam a cidade.
Numa tempestuosa nuvem com cheiro podre,
Os canos das fábricas exaltavam uma mocidade,
Perdida por esse fumo. Perdida no seu rumo.
Mas aquela ciganita,
Escondida e sorridente,
Lança uma perdição ardente;
Parece estar tão dentro de tudo,
Todavia está tão fora!
Que inveja tenho desta ciganita,
De não ser alguém que não se preocupa,
De não ser alguém que não se ocupa.




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